"Não me pergunte quem sou e não me diga para permanecer o mesmo." Foucault

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"Alquimia de ventilador, poesia de liquidificador..."

sábado, 6 de abril de 2013

Mulata exportação - Elisa Lucinda

“Em mim tu esqueces tarefas, favelas, senzalas, nada mais vai doer.
Sinto cheiro docê, meu maculelê, vem nega, me ama, me colore
Vem ser meu folclore, vem ser minha tese sobre nego malê.
Vem, nega, vem me arrasar, depois te levo pra gente sambar.”
Imaginem: Ouvi tudo isso sem calma e sem dor.
Já preso esse ex-feitor, eu disse: “Seu delegado…”
E o delegado piscou.
Falei com o juiz, o juiz se insinuou e decretou pequena pena
com cela especial por ser esse branco intelectual…
Eu disse: “Seu Juiz, não adianta! Opressão, Barbaridade, Genocídio
nada disso se cura trepando com uma escura!” 

segunda-feira, 25 de março de 2013

Festim


Metade da laranja?
Que laranja o que seu moço!
Ele é gente, e inteirinho
Completo e falho como se deve ser.
E eu completa, com braços e pernas
E um coração recheando o peito
Não teve jeito!
Acabei por me derreter!

Carne e unha?!?
Quem disse esse disparate?
Ele rói todas as unhas
E as vezes eu arranho a sua carne.
Fazer o que? Faz parte!
É que ele veio assim
Sem ter dó de mim
Acabei me enamorando!

Alma gêmea? Sei não!
Do modo que eu lhe sinto
Como ver nele um irmão?
E dá alma só sei dos risos
Dos olhares e dos sorrisos
Dos suspiros em minhas mãos.
Se é que é de alma o que sinto
Desse um todo que me agrada
De uns olhares famintos
De uma boca que me acaba

Não sei de errado ou de certo
Mas sei bem daquilo que eu quero
Só essa vida com ele não basta!
Amor talvez seja o nome
Dessa fome que nos consome, 
Dessa nossa festa que não passa.

(Fran)


Nossas águas


Ela dizia da profundidade da tristeza,
Ele versava sobre a superfície do ser.
Ela mergulhava na melancolia,
Ele só torcia pra chover.

Ela sorria em ondas constantes,
Ele afogava em cada sorrir.
Ela sonhava com mares distantes,
Ele ainda teimava em submergir.

Mas como rios distintos,
Corriam as vezes paralelos.
Ao acaso de uma geografia
Suas águas se encontraram
Se chocaram, revolveram,
Misturaram, cresceram,
Se lançaram em abismos,
Fertilizaram campos,
Saciaram sedes, aplacaram fomes.

Depois de tanto correr,
Depois de muito ver,
Perceberam que não cabiam mais em margens
Perceberam que não eram bastantes,
E naquele mais lindo instante
Naquela foz a se romper
Se amaram e viraram mar. 

Fran

"O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar" Drummond

domingo, 16 de dezembro de 2012

Te quiero - Mario Benedetti

Tus manos son mi caricia 
mis acordes cotidianos 
te quiero porque tus manos 
trabajan por la justicia 


Si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos

Tus ojos son mi conjuro
contra la mala jornada
te quiero por tu mirada
que mira y siembra futuro

Tu boca que es tuya y mía
tu boca no se equivoca
te quiero porque tu boca
sabe gritar rebeldía

Si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos

Y por tu rostro sincero
y tu paso vagabundo
y tu llanto por el mundo
porque sos pueblo te quiero

Y porque amor no es aureola
ni cándida moraleja
y porque somos pareja
que sabe que no está sola

Te quiero en mi paraíso
es decir que en mi país
la gente viva feliz
aunque no tenga permiso

Si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Crisálida

eu sei, eu sei, eu me escondo muito...
mas ainda me é estranho fora do casulo.

..::Fran::..

sábado, 19 de maio de 2012

Serei esquecida


Sei que serei esquecida. Talvez por todos. Talvez por alguns.
Mas sei que serei esquecida. Que as lembranças são mortais.
Que no próximo suspiro ela não mais lembrará o dia que nos despedimos.
Que no próximo mergulho ele não se lembrará das águas do meu rosto.
Sei que serei esquecida. Perturbadora essa certeza da minha finitude.
De que além da minha matéria morta, meus sonhos serão mortos
No dia que ninguém mais lembrar deles.

Sei que serei esquecida, mas quero esse dia longe, distante.
Assim alimento grandes sonhos, daqueles imensos, maiores que nós.
Por isso amo, e desesperadamente busco conquistar o mesmo amor de outros.
Por isso torno infinita a minha utopia, maior que qualquer horizonte.

Meu fim não será logo enquanto alguém sonhar os meus sonhos
Amar os que amo e caminhar olhando as nuvens.
Por isso rogo aos meus amigos: Se amem, por favor, se amem.
No amor de vocês há partículas da minha vivência, do meu ser.
Por isso vos imploro: Sonhem! Os mais doces e loucos sonhos!
Com crianças brincando, mesa farta, e liberdade estampada no rosto.
Por isso rezo, que tenham força pra caminhar,
Pois minha utopia está distante, e só com os teus passos se poderá alcançar.

       E assim, se minhas preces forem ouvidas, não terei mais a certeza de ser esquecida.


                                                 ..:::Fran:::..

sábado, 3 de março de 2012

o chão da cozinha

Nunca a sensação do chão frio nos pés descalços foi tão boa. Nem era tão frio assim. Fresco. Ameno. Enquanto ela sentia cada centímetro do piso, ouvia os sons na cozinha, ruídos um pouco atrapalhados, mas nem por isso menos interessantes. Ou talvez por isso mesmo, ainda mais significativos. O fogão com suas bocas, vãos e botões, trabalhava com afinco. Afinco maior ainda era o dele, que remexia de forma ruidosa nas panelas no fogão, numa alquimia de sabor e carinho. Nunca antes o frio nos pés descalços dela fizeram par com o calor do fogão nas mãos dele. Par não, casal. E assim seguiu o frio ameno e o calor do preparo numa troca sutil de afeto. E por uma tarde inteira foram felizes.